Reconhecendo o problema

Reconhecendo o problema

Por muito tempo neguei. Eu não queria acreditar que tudo aquilo que aconteceu com meu pai poderia acontecer comigo também. Eu sempre fui muito alegre e explosiva, a mais pra frente entre as minhas amigas, a cativante – bla bla bla, mas em algum momento certas coisas me tornaram um pouco cinza, não tão alegre como antes e em alguns momentos até agressiva, vazia e indiferente. Essas coisas foram me apagando e me sugando, só sei que eu pude assistir minha mudança achando que era normal, só que de uma certa forma eu tinha perdido uma parte do meu arco-íris interior e tava achando que isso era ser adulta. Por mais que as coisas sejam difíceis, eu não achava isso certo, mas também achava que tinha muita gente com problemas piores que os meus e nem por isso elas pediam ajuda, pelo contrário, eram fortes e lutavam por dias melhores. Eu simplesmente demorei pra perceber que as muitas vezes que eu chorei escondida de todo mundo poderia ser o início de um problema um tanto grave lá na frente.

A verdade é que eu já não me reconhecia mais. Por onde andava toda aquela alegria? O que eu tinha feito pra me perder assim? Nada nem ninguém conseguia me responder isso. Havia dias em que eu tentava enxergar o brilho do que era a vida, mas eu simplesmente não conseguia ou até conseguia, mas logo depois lembrava dos meus problemas muito maiores do que realmente eram e isso sufocava toda a minha esperança de que as coisas seriam melhores a partir de um momento bom.

Um certo dia, percebi que estava agressiva demais, chata demais, implicante demais, como se fosse outra pessoa, magoando as pessoas que eu mais amava no mundo. Aquilo me assustou muito e cada vez que isso acontecia me deixava ainda mais triste e, foi quando eu comecei a me afastar delas. Eu não podia simplesmente chegar e contar tudo que sentia, ninguém ia entender, então me poupei disso e continuei tentando um dia de cada vez.

Lembra do meu casamento? Eu ainda não casei e digo que boa parte foi por tudo isso que venho passando. Antes eu estava super empolgada, fazendo mil planos, dormindo tarde, fazia orçamentos e planejava tudo que podia. Algo aconteceu nesse “meio tempo” que eu perdi toda a vontade de realizar tudo que havia sonhado desde pequena pra mim e para quem quisesse fazer parte da minha vida. Independente disso, precisei fazer catequese se quisesse casar na igreja católica e me inscrevi. Nunca havia feito nada em igreja, só ia em algumas missas uma vez na vida acompanhar minha avó, sempre muito religiosa.

Passei a frequentar e me sentir muito bem cada vez que encontrava a minha turma. Era como se fosse um psicólogo que eu não tinha. Voltava renovada e acreditando que eu seria capaz de conseguir qualquer coisa que eu quisesse. Depois de concluir a catequese, me batizei e parei de frequentar a igreja. Eu podia perceber que o que eu sentia era espiritual e que algumas idas na igreja me ajudava, mas não me curou. Aí pensei: religião não vai me curar.

Em uma das poucas visitas que faço à minha avó paterna, eu me emocionei de ver quase todas as pessoas que mais amo no universo inteiro ali bem pertinho de mim e comecei a chorar e acabei contando tudo que estava sentindo todo esse tempo. Só conseguia ver espanto nos rostos das minhas tias e acolhimento da minha avó. Logo pedi que me ajudassem pra conseguir identificar o que eu estava sentindo de fato e como isso poderia ser tratado.

A lição que tirei disso tudo é que você até pode falar com seus amigos, namorado, noivo, marido ou qualquer outra pessoa, mas sua família, seus pais, avós, tias são aqueles que parariam o mundo só pra te ajudar. Tente conhecer uma religião em que complete, algo que você se identifique de verdade. Confie mais em quem te ama de verdade, compartilhe o que você está sentindo, e lembre-se que o pior é ver quem te ama triste por uma coisa que poderia ser evitada. Essa semana descobri um movimento que se chama Setembro Amarelo, trata-se de uma campanha de prevenção ao suicídio, vale a pena conhecer e compartilhar com seus amigos e sua família para tentar ajudar uma pessoa que você tem notado um comportamento diferente. Não dê as costas a esse tipo de situação, dê muita atenção e procure ajudar.